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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Se conduzires...

Estás a pilotar um carro e manténs uma velocidade constante. Do teu lado esquerdo encontra-se um cisne enorme. Do lado direito um grande carro de bombeiros, que mantem uma velocidade idêntica à tua. À tua frente galopa um cavalo, que é bem mais alto do que o teu carro, e não consegues ultrapassá-lo. Atrás de ti vem um helicóptero rente ao chão. Tanto o cavalo como o helicóptero mantêm uma velocidade idêntica à tua. O que fazes para sair desta situação em segurança?
Pensa um pouco...
Mais um pouco...
A resposta está mais abaixo....

Resposta:Sai do carrossel e deixa de beber, que o álcool está a dar cabo de ti....

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Um livro escrito nos rodapés

Cá estou, hoje sem muito que dizer, nem com vontade de saltitar entre uma linha e a esquina da minha rua onde vejo um homem a fumar, a tomar num gesto a cigarrilha da gabardine, a apalpar um bolso, e outro Ora que porra não encontro a m... d'
o esqueiro,
a ter de procurar na mala, que pousa, que abre e lá encontra no meio dos papeis uma recordação da Pensão onde passou a noite anterior, donde saiu sem fazer a barba que coça quando leva a primeira passa, que inspira suavemente Ah caramba porque sente o prazer entrar-lhe nos pulmões, enquanto olha para o relógio também, e esquece-se que está adiantado,
(não atrasado porque o autocarro das 7:40 já passou e agora está adiantado para o próximo) e que o autocarro só passa quando passar, porque é o especial, que só vem quando chega e mais uma vez Vou chegar atrasado, caramba, porque nunca acorda a horas, ou quando acorda, olha para o relógio e pede só mais uns minutos, mais uns cinco e Já me levanto e fecho a janela, para não o ver fugir da ponta do cigarro em fumo, a voar por cima da sua boca, ao canto da esquina
e volto para o meu computador, porque
tenho de sair,
tenho de ir dar aulas na faculdade, e não quero chegar atrasado ou ficar uns dez minutos
que porra
a espera do autocarro. Mas antes de sair, vou buscar o isqueiro, tomar a bagardine e correr com a mala cheia daqueles livros daqueles artigos que os alunos não gostam mas lá tenho de os dizer Olhem que o livro também se escreve no rodapé, mesmo com a barba por fazer e com uma vontade imensa de fumar.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A arte das sombras (vídeo)

Luis Armstrong toma vida nas pontas dos dedos de um artista de sombras e volta a cantar o mítico Wonderful World. Muito artístico... e divertido.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Viste por aí o verão?

na semana passada deixei a sensação de que estava de malas aviadas para férias, levando na bagagem dois livros e o mundo debaixo do braço. deixei no ar o espectro da saudade, num até setembro se deus quiser. no entanto, por boa educação e cautela avisei que se o tempo não soprasse bons ventos me ficaria pelas ondas da rádio. nesse entretanto, troquei as voltas à lista e em vez de um outro livro adicional, preferi pegar no meu computador portátil e assinar um serviço sem fios. vou de verão mas não posso deixar para trás o IMAGINASTICANDO: tenho de escrever posts para o meu blog; tenho de cumprir o meu ritual de cidadania e pertença à blogosfera. este é o meu último post antes de partir. espero que o leitor compreenda: se a tradição (por curta que tenha sido) lhes cunhou o carácter público de um diário íntimo, hoje os blogs e a galáxia onde giram numa velocidade incrivelmente delirante deixaram de ser um fenómeno periférico para passarem a ser um fenónemo absolutamente essencial na sociedade de informação. como dizia o poeta, no início estranha-se, depois entranha-se. a sedução bloguista já não é apenas a do desabafo existencial, mas o do comentário, do facto, da informação, da reflexão, do som, da imagem… e também dos silêncios: os silêncios apressados de cada salto, de cada leitura viciante. é que a blogosfera tornou-se numa grande conversa global na qual o indivíduo se liberta, partilhando ideias e redes de influência, criando novos modos de comunicar; tornando-nos uma espécie de repórteres populares… mesmo se num safari de verão. ao contrário de um livro que nos propõe uma viagem de passiva e nos invade de leitura, o blog promete-nos uma continuidade participativa, documental… cheia de impressões e verões digitais. e porque o tempo continua de maus fígados, não parto apenas para o verão com o mundo debaixo do braço: parto para a blogosfera com a esperança de lá encontrar o verão perdido deste mês de julho. e já agora: espero que agosto não se perca também!

terça-feira, 17 de julho de 2007

Verão: o mundo debaixo do braço

em pleno verão, já com julho a escorrer pela testa e de malas aviadas para um recanto de refúgio também eu não queria ouvir mais uma crónica. queria já ter partido. é que depois de uma temporada de onze meses de trabalho (para os mais afortunados) ou de nove meses de aulas (por mal descontados que sejam), eu respeito o ouvinte que merecidamente declarou aberta a caça ao ócio: começou aquela época do ano em que apenas queremos fazer nada e viajamos para um lugar do não quero nem saber. e apenas nos preocupamos com a nossa lista de livros e lugares de fuga, desligando as preocupações que nos consumiram as energias, a paciência, o talento até,… e o corpo em amassos nos transportes durante quase um ano. nesta época, ver televisão entedia, ouvir rádio compromete. só temos uma saída: pegar em livros e levar o mundo debaixo do braço até à praia, queimando o tempo nas águas descalças e nas areias sentadas num comprimento de onda fresca. por isso, em vez de uma crónica como as de costume, preferia mergulhar nas águas do verão, aviando-me na minha lista de livros, que se resumem a dois: the green king, em inglês, para me tornar as férias mais lentas, para me invadir de mundos novos, escorrendo-me na prosa, na memória, na narração. esquecendo-me, por instantes, do trabalho, da rádio… desta crónica. o outro ainda não sei qual! e, na verdade, nem interessa: apenas servirá para me fazer lembrar: não o vou ler! preciso desse livro extra para me lembrar que estou de férias. e para aquela doce ilusão de ter tempo para mais um. para mim as férias começarão na primeira página do the green king e acabarão quando arrumar o outro livro para voltar para o trabalho. vou começar este verão na lombada de um livro que não sei para onde me levará. e nem estou aí para isso! apenas seguirei o conselho do meu irmão: leva-te neste livro!... e nem me disse porquê. como quem nos oferece um bilhete, boa viagem,… sei que vais voltar. até lá, vou-me deixando invadir pelas ondas da rádio.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

terça-feira, 3 de julho de 2007

Imaginacitando - Pitágoras

  • Escuta, serás sábio. O início da sabedoria é o silêncio
  • Não sabe falar quem não sabe calar
  • Não fales da tua felicidade a quem não for tão feliz como tu

Viveu entre 585 a.C e 495 a.C.. Há taaaaaaanto tempo, mas tãããããoo actual.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Senhora Macbeth

Há peças que nos enchem os olhos, não pelo cenário (minimalista, uma mão criminosamente denunciada, três cadeiras e luzes descidas das amarguras) mas pela actuação vertiginosa de Marília e das suas "bruxinhas". O espectáculo, a que assisti no dia 16 de Junho prendeu-me à cadeira. Depois disso, é difícil não se render à Marília, digo: à Senhora Macbeth. Tive pena das palmas: Marília e as suas "bruxinhas" mereciam mais do que o frágil crepitar de pipocas dentro de uma panela: mereciam sons ensurdecedores de foguetes.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Uma boa meia decisão

A decisão de proibir a lavagem de carros na via pública é uma boa decisão. Mas é uma meia decisão. Com efeito, as autoridades santomenses inserem esta medida no âmbito do programa «Cidade Limpa», que visa disciplinar o comércio informal na cidade capital, evitando-se a ocupação selvagem da via pública. Visto do prisma do interesse geral, a cidade limpa desentope a circulação de peões e de viaturas, promove maior higiene e configura a estética da cidade: numa palavra, torna-a mais urbana! Assim, a medida é boa porque traz benefícios colectivos para a cidade.
No entanto, a decisão em si não afecta apenas o cidadão abstracto da ou na capital: afecta especial e concretamente os lavadores de automóveis, sobretudo, os jovens que viam nesta actividade o sustento ou o complemento de sustento familiar. Visto do prisma destes jovens, a decisão é uma meia decisão, porque não indica uma solução para o efeito restritivo agora criado. É que, bem ou mal, estes jovens tinham uma profissão, uma actividade que, muito embora, os tivesse retirado dos bancos da escola, não os atirou para a completa marginalidade, ou para o desespero do desemprego. Agora, no espaço que antes era de liberdade, o Estado criou uma proibição.
Como tentei mostrar brevemente, a decisão comporta vantagens e desvantagens: ela foi tomada porque as vantagens ultrapassaram as desvantagens. No entanto, só é completa a decisão que visa solucionar os problemas por ela criados ou levantados. Assim, onde a lei fecha uma porta, deve permitir condições para a abertura de outras. Sem conceder na necessidade de qualificar a vida urbana, as autoridades santomenses não podem deixar de criar um ambiente social que possibilite a estes jovens tomar uma decisão que lhes permita perseguir um caminho por eles definidos; é preciso ajuda-los a obterem a sua independência financeira através de criação de políticas orientadas para oportunidades que despertem o saber, as capacidades e a vontade empreendedora destes jovens: forças essas geradoras de riqueza ou apenas de mais uma história de sucesso!
A busca de trabalho, sucesso ou de apenas felicidade! pelos jovens não deve acabar como um conflito cego entre autoridade e liberdade, mas sim como uma gestão adequada e justa de oportunidades!

domingo, 6 de maio de 2007

Uma maneira esquisita de falar: o caso do acordo ortográfico

começo por uma declaração de interesses: não tenho de fazer provas de escrita da língua, tenho um nome esquisito, com k, n’ e y; e prefiro escrever facto, óptimo, acção e outras tantas palavras de grafia lusa com todas as consoantes, sejam elas surdas ou mudas. dito isto, muitos dos ouvintes já adivinharam que vou falar do acordo ortográfico da língua portuguesa; essa lingua falada por 200 milhões de pessoas a quem por falta de paciência e respeito que o tema me merece, doravante designarei por 200.
de acordo com as últimas notícias que li, o secretario executivo da cplp – esse órgão oficial tão útil quanto fútil aos tais 200 – deseja acelerar o processo para a entrada em vigor do dito acordo. nem mais, ou dito em bom português: na mosca! o que o quotidiano dos 200 exige é mesmo um acordo de língua e o caso português é a esse título exemplar: o acordo ortográfico não desblindará a lista de 57 páginas de nomes próprios proibidos na qual a santa estupidez burocrática portuguesa incluiu como adilson, adriane, aguinaldo, ailton, baltazar, cádio, celisa, didier, elba, edmar, edmilson, holden, iasmine, idalécio, janet, karina, maribel, naomi só para citar alguns dos nomes provados e registados num ou outro dos países dos 200, são escritos em português unificado. sublinho ainda que se os ditos nascessem em portugal, teriam de receber no baptismo as etiquetas administrativas de nomes tão originais como ana, pedro, joao, antónio, joana, luís, josé e outros da mesma colheita.
o acordo também não vai acabar com a presunção legal segundo a qual um cidadão angolano, brasileiro, cabo-verdiano, guiniense, moçambicano, timorense ou santomense que não andou na escola é lusofono mas não fala português, uma vez que continuará a ter de matricular-se nas provas de conhecimento da língua portuguesa para adquirir a licença de uso e porte de nacionalidade lusa. mais!
não adivinho que a partir da entrada em vigor da dita escrita única acabem com os erros de ortografia política, com as redundâncias surdas-mudas burocrático-institucionais, com o medo acentuado de viver paredes-meias com manifestações racistas, xenófobas e nacionalistas que desunem este tão vasto univeso linguistico.mas exemplos a parte e já que em português nos desentendemos, estou convencido que os políticos têm uma maneira esquisita de falar:
falam de prioridades politiquesas esquisitas, para não dizer fedorentas, que não encontram adesão nos ouvidos do cidadão. mas pior que os políticos – e burocratas, que para efeitos fedorentos são joio do mesmo saco – são os cientistas da língua que não percebem que se é de ciência que arrogam o estatuto das respectivas carteiras e carreiras, deviam ser humildes ao estudar e ensinar a língua, a sua estrutura, a sua evolução e a sua correcção, em vez de converterem o objecto de estudo em ideologia e capricho, com mais ou menos argumentos de conveniência prática.
numa era globalizada, ser prático implica a eliminação de barreiras linguísticas impostas por burocracias claustrofóbicas que não percebem que falar português não é um fato cortado nas cortes das academias de letras; que os nomes próprios não dizem respeito apenas à falta de originalidade de que qualquer deles padeça; e que a língua comum serve para comunicar – sendo que os governos não decretam a comunicação – e, nem serve para engenharias pseudo-científicas; ser prático é apenas ser útil. por esses motivos, parece-me que o acordo ortográfico não alterará nada na vida das pessoas. ou seja, e dito em português pudico porque o serviço público desta estação a isso obriga: acho que este acordo é simplesmente medroso. devo, no entanto, esclarecer que, por uma questão de cheiro troquei a ordem do d e do r na adjecticação utilizada.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Dois hinos, uma mensagem

ontem juntei-me ao coro do HINO DA ALEGRIA para celebrar os 50 anos da união europeia. essa união que em 1957 começou como uma comunidade: um sonho de paz tornado realidade pela vontade política de unir um continente desavindo, perdido em batalhas ancestrais e que hoje é, como lembrou o presidente da república português uma âncora de paz e um conteúdo de valores partilhados, liberdade e solidariedade. o que para alguns não passava de uma utopia, é hoje uma realidade que atravessa todas as dimensões da nossa vida política, económica, social e cultural.
não me esqueço que o projecto não se fez sem dificuldades, esforços, consertos e compromissos e que o futuro não está isento de novos desafios, dificuldades e mais compromissos. no entanto, a história mostra-nos que nos momentos decisivos, a utopia guia o compromisso e juntos vão tartarugando o projecto comum.
depois dessa comemoração europeia, olho para a minha herança africana e anseio pelo dia em que cantarei os 50 anos de VAMOS NOS UNIR E CELEBRAR JUNTOS: o hino da união africana. o hino que enuncia a utopia pensada e iniciada em 25 de maio de 1963 como a organização de unidade africana e que em 2002 se tornou na união africana.
a união exprime um renovado compromisso político africano de superar o pesado legado histórico cunhado em letra de lei em 1885, em Berlim, rumando desta vez para uma narrativa com voz própria, em torno da unidade e da solidariedade entre os povos e países africanos, num intencional sentido de paz, segurança e estabilidade do continente.
para superar a história, o desafio da integração africana deve olhar para as lições europeias e delas pode aprender que o destino da integração política não pode deixar para trás os povos e as pessoas que integram um espaço de vizinhança, onde os estados, as nações e as fronteiras são convidados a construir um condomínio de objectivos, sonhos e realidades, respeitando um passado longo que os separa, mas avançando para um futuro ainda mais longo que os une pelo umbigo.

segunda-feira, 5 de março de 2007

A Responsabilidade Social das Empresas (ainda) é Aumentar os seus Lucros

um dos dados mais curiosos desta globalização é a aparente indiferença do poder económico perante a pressão dos acontecimentos de natureza política ou social adversos. no entanto, apesar dessa indiferença a globalização ainda não foi capaz de conferir legitimidade suficiente para que se opere uma deslocação e concentração dos – chamemos por facilidade – “centros de decisão” nas empresas, de modo a fazer acompanhar o poder efectivo que estas aparentemente detêm sobre os estados e as sociedades.
como instrumento de reivindicação dessa legitimidade, a responsabilidade social das empresas começa de novo a ecoar na boca de cada vez mais adeptos. o debate dos prós e contra não é de hoje e a propósito ficou célebre o artigo de milton friedman intitulado A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS É AUMENTAR OS SEUS LUCROS, no qual, em 1970, o economista dos economistas avisou que o negócio das empresas são os seus próprios negócios: o recado parecia estar dado.
hoje, no auge da globalização (ou depois dele como alguns analistas já adiantam), a responsabilidade social vai renovando as suas várias caras, sustentado pela tese de que as empresas devem assumir um maior protagonismo social, desempenhando o papel que tradicionalmente cabe ao estado e aos entes sociais intermédios, como as fundações, associações e organizações de solidariedade social.
não nego a existência de uma relativa responsabilidade, um trickle down effect, que as empresas devam assumir perante as sociedades onde actuam, uma vez que enquanto pessoas fictícias e legais, as empresas são interpostas criaturas ao serviço dos seus sócios e estes não devem ficar alheados do contributo para a construção dos ecossistemas de desenvolvimento social e laboral nos lugares que lhes permitem acumular lucros. porém, o debate ainda não me convenceu a abandonar os padrões da tradição dos compromissos sociais e os preconceitos da minha formação ética.
por isso, entendo que por mais importante que sejam as empresas na criação de riqueza e na aceleração do processo da evolução humana, a sua responsabilidade social só pode ser concebida enquanto instrumento social legítimo se resultar de um firme compromisso constitucional entre a realização do lucro e a justa distribuição do mesmo – isto é, uma mais equilibrada e justa repartição entre as rendas, os salários, os juros e os lucros, bem como os perigos, ameaças, inovação e bem-estar.
enquanto não houver um verdadeiro contrato social entre as sociedades e as empresas, mediante a qual se criem mecanismos de participação e controlo social – o que em si contraditório com a noção de empresa e propriedade privada –, a responsabilidade social das empresas não passará de tentativas de apropriação do estado e dos entes sociais intermédios por máquinas de marketing na criação do lucro. logo, será ilegítima a demissão do estado das suas funções, porque dessa forma estará, em nome do povo, a trair a missão que o mandato social o confiou.
neste contexto, uma das funções essenciais do estado será criar os regimes legais necessários para evitar que outras empresas façam como uma das maiores empresas petrolíferas do mundo que, na nigéria, em nome da responsabilidade social ofereceu bolas de futebol à uma população que vive no meio de um pântano sem sequer usufruir de casas condignas, água potável e saneamento básico.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Revolução Científica Africana: entre a palavra e a coisa

desde os tempos mais remotos até à actualidade, o progresso das sociedades humanas tem sido pautado por conquistas e inovações tecnológicas. conquistas essas que revelam o esforço humano de dominar o saber, a natureza e as suas próprias limitações.
na sua última obra, A REVOLUÇÃO DA RIQUEZA, alvin e heidi tofler propõe-nos uma breve cartografia dessas conquistas. ao percorrermos o atlas que propõem, descobrimos que o esforço tecnológico – do mais tosco ao ultra-sofisticado – permitiu ao ser humano sobrevoar três vagas na criação de riqueza: a primeira marcada pelo cultivo agrícola; a segunda marcada pela produção industrial e a terceira, na qual viajamos à velocidades estonteantes, marcada pelo conhecimento científico e tecnológico, empírico ou meramente participativo e pela aceleração do tempo.
A 8.ª cimeira dos chefes de estado da união africana, realizada em finais de janeiro na capital etíope abdis abeba, prometia ser uma repetição da cimeira de lagos realizada há cerca de 30 anos, na qual – já nessa altura – se reconhecia e prometia colocar a ciência e a tecnologia ao serviço do desenvolvimento através do reforço da capacidade endógena dos países africanos. em abdis abeba voltou a repetir-se o cardápio e os discursos pontuaram-se na exortação aos estados membros para que despendam 1 % da sua riqueza anual em pesquisa e desenvolvimento científico e para que contribuam para o fundo africano para a ciência e inovação. ao que parece, desta vez os líderes africanos escutaram o repto de acabar imediatamente com o eterno fosso entre a palavra e a coisa.
para já, os 240 hectares do instituto do golfo da guiné, cujas obras iniciaram na semana passada em abuja certificam o esforço africano para estruturar uma comunidade científica própria, através de uma rede de centros de excelência que ajudem a diminuir o fosso, desta feita tecnológico e científico e de riqueza que separa o continente do resto do mundo. o truísmo aqui é simples: estes centros exigem/induzem a uma utilização eficaz de recursos humanos e técnicos, aumentam a pressão para a adopção de melhores práticas de gestão e potenciam a criação de pontes entre a investigação científica e actividade empresarial.
no entanto, para que os fossos tecnológico e científico passem de vez para os armários das más recordações e se abrace esta vaga de criação de riqueza, é necessário ver/navegar para além da excelência elitista dos centros de investigação: precisamos promover e implementar uma verdadeira cultura geral científica, de modo a tornar tanto a ciência e a como a tecnologia em lugares comuns que convivam diariamente e sejam acessíveis ao homem e mulher comuns para que estes tenham acesso a saberes que lhes abram as portas a melhores empregos e novas oportunidades económicas.
ou seja, a verdadeira revolução da riqueza só acontecerá se for feita com a base da pirâmide, porque como nos lembram os tofler, uma economia avançada requer uma sociedade avançada.