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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O mundo é plano...

E eis a prova... Um ratinho estava na toca, encurralado pelo gato o que, do lado de fora, miava: - MIAU, MIAU, MIAU. O tempo passava e ... : - MIAU, MIAU, MIAU. Depois de várias horas e já com muita fome o rato ouviu: - AU! AU! AU! Então deduziu: - Bom, se há cão lá fora, o gato foi-se embora. Saiu disparado em busca de comida... Nem saiu bem da toca e o gato, NHAC! Inconformado, já na boca do gato perguntou: - Porra gato! Que merda é esta? E o gato respondeu: - Meu filho, neste mundo globalizado de hoje, quem não fala pelo menos dois idiomas morre à fome!

segunda-feira, 5 de março de 2007

A Responsabilidade Social das Empresas (ainda) é Aumentar os seus Lucros

um dos dados mais curiosos desta globalização é a aparente indiferença do poder económico perante a pressão dos acontecimentos de natureza política ou social adversos. no entanto, apesar dessa indiferença a globalização ainda não foi capaz de conferir legitimidade suficiente para que se opere uma deslocação e concentração dos – chamemos por facilidade – “centros de decisão” nas empresas, de modo a fazer acompanhar o poder efectivo que estas aparentemente detêm sobre os estados e as sociedades.
como instrumento de reivindicação dessa legitimidade, a responsabilidade social das empresas começa de novo a ecoar na boca de cada vez mais adeptos. o debate dos prós e contra não é de hoje e a propósito ficou célebre o artigo de milton friedman intitulado A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS É AUMENTAR OS SEUS LUCROS, no qual, em 1970, o economista dos economistas avisou que o negócio das empresas são os seus próprios negócios: o recado parecia estar dado.
hoje, no auge da globalização (ou depois dele como alguns analistas já adiantam), a responsabilidade social vai renovando as suas várias caras, sustentado pela tese de que as empresas devem assumir um maior protagonismo social, desempenhando o papel que tradicionalmente cabe ao estado e aos entes sociais intermédios, como as fundações, associações e organizações de solidariedade social.
não nego a existência de uma relativa responsabilidade, um trickle down effect, que as empresas devam assumir perante as sociedades onde actuam, uma vez que enquanto pessoas fictícias e legais, as empresas são interpostas criaturas ao serviço dos seus sócios e estes não devem ficar alheados do contributo para a construção dos ecossistemas de desenvolvimento social e laboral nos lugares que lhes permitem acumular lucros. porém, o debate ainda não me convenceu a abandonar os padrões da tradição dos compromissos sociais e os preconceitos da minha formação ética.
por isso, entendo que por mais importante que sejam as empresas na criação de riqueza e na aceleração do processo da evolução humana, a sua responsabilidade social só pode ser concebida enquanto instrumento social legítimo se resultar de um firme compromisso constitucional entre a realização do lucro e a justa distribuição do mesmo – isto é, uma mais equilibrada e justa repartição entre as rendas, os salários, os juros e os lucros, bem como os perigos, ameaças, inovação e bem-estar.
enquanto não houver um verdadeiro contrato social entre as sociedades e as empresas, mediante a qual se criem mecanismos de participação e controlo social – o que em si contraditório com a noção de empresa e propriedade privada –, a responsabilidade social das empresas não passará de tentativas de apropriação do estado e dos entes sociais intermédios por máquinas de marketing na criação do lucro. logo, será ilegítima a demissão do estado das suas funções, porque dessa forma estará, em nome do povo, a trair a missão que o mandato social o confiou.
neste contexto, uma das funções essenciais do estado será criar os regimes legais necessários para evitar que outras empresas façam como uma das maiores empresas petrolíferas do mundo que, na nigéria, em nome da responsabilidade social ofereceu bolas de futebol à uma população que vive no meio de um pântano sem sequer usufruir de casas condignas, água potável e saneamento básico.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

De Nairóbi a Davos: a Globalização a duas vozes num mundo achatado

as notícias que dão conta de que O Mundo é Plano são francamente exageradas, se não mesmo falsas. reparem: numa mesma semana, com início no passado sábado e fim no próximo domingo, o mundo será interpretado em duas importantes arenas internacionais: o fórum social mundial e o fórum económico mundial. o primeiro reúne-se desde sábado em nairobi, no quénia; e o segundo inicia-se na quarta-feira em davos, na suiça. naquele discute-se um outro mundo possível, pela libertação do mundo do domínio das multinacionais e do capital e pela construção de uma economia alicerçada nas pessoas. neste equacionam-se as novas forças da mudança, os perigos geopolíticos, os avanços tecnológicos e os constrangimentos à globalização.
entre o social em nairóbi que caracteriza a utopia crítica de uma visão alternativa, numa busca de uma partilha equitativa da riqueza e a economia dos lucros e da riqueza que tenta alargar as conquistas da produção liberal em davos, áfrica surge em cima da mesa de ambos os conclaves: na mesa de davos, surge como potencial beneficiário de uma globalização que ainda não passou pelo continente, ou melhor, que já lá há muito atracou para encher navios de recursos naturais e aviões de talentos humanos prontos a exportar. na mesa de nairóbi, surge como o mais ilustre perdedor na luta de titãs das grandes potencias e multinacionais em busca de um paraíso de baixos custos de produção, segurança de abastecimentos e acesso a mercados favoráveis.
a verdade é que, seja em nairóbi seja em davos, áfrica parece uma impotente estátua no centro de uma praça, por onde todos passam e até apontam maravilhados congeminando projectos, estratégias e modelos de desenvolvimento, sem no entanto a estátua virar gente de carne e osso. áfrica hoje, como ontem, é apenas uma disputa e fonte de riquezas que vai trocando a alma pela promessa de um desenvolvimento adiado, hipotecando ou devorando a própria esperança num processo de neo-mercantilismo cínico, seja ele porque não contempla a riqueza pelos meios duma globalização canibalizante, seja porque insiste na apropriação de utopias cegas à criação de riquezas. riquezas essas que já não brotam do chão, das minas ou de outros buracos mais ou menos fundos, mas que provêem de tecnologias, informação e talentos humanos. riqueza essa que davos acumula a norte e que nairóbi pretende distribuir a sul.
é preciso compreendermos que, enquanto a globalização deixar vazias as barrigas de áfrica, o mundo continuará redondo e achatado. talvez mesmo um pouco chateado: seja em davos, porque o continente continuará a ser o sapo entalado na engrenagem dos lucros; seja em nairóbi, porque as utópias por si só não enchem a barriga de multidões.

Feito a 4 mãos, com Rute Martins Santos (a minha delightful amora) nos teclados.

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