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segunda-feira, 18 de junho de 2007

Tabú: entre a brevidade das promessas e a longevidade dos resultados

Durante três dias, esteve reunida a 17.ª sessão do Fórum Económico Mundial. Desta vez, na cidade do cabo para «elevar a fasquia» da boa esperança ao continente africano. Os tópicos foram os do costume: competitividade e crescimento económico; o toque de caixa o de sempre: são precisos mais planos de desenvolvimento; mas desta vez o presidente anfitrião, Tabu Mbeki, considerou que África não precisa de um só plano de desenvolvimento: precisa de vários, tendo em conta que não se deve generalizar sobre o que o continente precisa para o seu desenvolvimento sem ter em conta os seus 54 países e as dezenas de comunidades e arranjos regionais.
Apesar de Mbeki ter razão quanto às necessidades nacionais ou das comunidades regionais, penso que não há qualquer falácia na generalização de um plano para o continente. É que não se pode deixar de lado os denominadores comuns que estão identificados há muito e que permitem, em poucos factores e com ganhos de coordenação, apreender a visão de conjunto e os elementos indutores de desenvolvimento.
Na verdade, apesar da diversidade dos países e das regiões, a competitividade e o crescimento devem ser tomados em conjunto, para que os efeitos sejam de escala e multiplicadores. Esse desenvolvimento conjunto passa pela criação de condições para acesso a investimento, ferramentas de conhecimento, factores de sustentabilidade e de mercados. Por seu turno, crescer e tornar competitivo os países africanos pressupõe libertar o potencial criativo e empreendedor dos africanos: criar empreendedores locais, capazes de participar no processo de geração de emprego, riqueza e mercados internos.
Onde quer que se situe o desafio do desenvolvimento africano, é necessário investimento no factor humano, nas infra-estruturas, no ambiente de negócios, mas também na criação de mercados. Para isso, é necessária uma comunidade de vontades políticas continental que entenda que o poder político que possuem deve ser utilizado para induzir bem-estar geral, criação de factores locais de aquisição de uma mentalidade de acumulação de direitos sejam eles políticos ou económicos. Em suma, para elevar a fasquia são necessários mais do que os planos do costume.
Entre a brevidade das promessas e a longevidade dos resultados, há todo um continente que espera acções concretas e simples: acções que visem libertar o potencial dos africanos e que lhes insufle a vontade de construir o seu próprio desenvolvimento. Para isso não são precisos planos de desenvolvimento: são precisos planos de liberdade política e económica.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Emerging Hope from Africa

Um texto da presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, publicado no Project Syndicate (v. Imaginásio) que relata algumas das novas faces de África. Vale a pena (re)ler...

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Parabéns, África!

A poucos dias de se comemorar mais um dia de África, não posso deixar de me associar aos preparos comemorativos. Desta vez, o sabor do 25 de Maio lembra-nos as utopias sentidas há 50 anos por Kwame Nkrumah – «Procurem primeiro o reino político, e todas as outras coisas virão a seguir.» - no início da primeira onda das independências, que começou no Sudão, Marrocos, Tunísia (1956), Gana (1957) e Guiné (Konakri; 1958). 50 anos depois, muitos dirão que já/ainda não há motivos para comemorar. Ao contrário dessas vozes (adeptos de um certo afro-pessimismo), penso haver razões que nos habilitam a comemorar e festejar (há razões para o afro-reconhecimento). Com efeito, nesse período:

– Criamos uma Organização da Unidade Africana (25 de Maio, 1963), agora União Africana (9 de Julho, 2002), ligando as vontades políticas de Norte ao Sul do continente;

– Vencemos o Apartheid e começámos a criar sociedades e regimes mais abertos, mais justos;

– Iniciámos a internalização de soluções africanas (a kind of an African way) para as questões africanas;

– Criamos universidades e centros de investigação científica;

– Nos últimos anos, a economia tem crescido acima dos 5%, acompanhado pelo crescimento de exportações de 37 países para os EUA;

– Temos uma praça financeira – a bolsa de valores de Accra, no Gana – que cresce a níveis das maiores e mais reputadas do mundo (e em 2003 foi a que mais capitalizou em todo o mundo);

– O crescimento do uso de tecnologias de informação/comunicação como o telemóvel e Internet não encontra par em qualquer outra região do mundo.

Sei que estou a simplificar e a mostrar apenas uma das faces da moeda. No entanto, não estou a ser redutor: é que de onde vêm boas notícias, vem esperança! Ao contrário de outras simplificações mais bi-cromáticas (ao velho estilo preto e branco), não creio que estes 50 anos ostentem apenas fracassos: há cores de pequenos e grandes sucessos no caminho percorrido. E é por estas cores que não hesito em soprar as velas de um bolo feito de mulheres, homens, as suas ideias e um destino sempre imperfeito mas esperançoso. Parabéns, África.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

A Nigéria reencontrada

A Nigéria encontra-se num verdadeiro teste de regime. Nos dias 14 e 21 deste mês, o povo nigeriano foi e será chamado a dar provas da vitalidade e credibilidade das suas instituições democráticas. Neste período de oito dias, os nigerianos são chamados a eleger novos governadores, novos representantes federais e um novo presidente. Trata-se de um momento histórico que traduzirá, pela primeira vez, a passagem do poder entre forças democráticas. Com as eleições de 1999, a Nigéria abandonou um longo período de insígnias militares e abraçou a vontade popular traduzida não só mas também na vontade geral dos votos. Então, a democracia nigeriana venceu e exibiu um grau de confiança apreciável: cidadãos davam boas-vindas a um sistema que esperavam vir garantir direitos, inclusão e transparência. Esperavam que essa senhora mítica lhes mostrasse um processo de confiança política, estabilidade e prosperidade.
Oito anos volvidos e apesar das debilidades dos processos eleitorais, os nigerianos foram e serão chamados às urnas novamente, ainda esperançosos no voto e na expectativa de limitar a alienação das suas instituições democráticas. Desta vez, trata-se de eleger representantes do povo – ao nível estadual e federal –, mas também de recuperar o capital de confiança roído pelas rivalidades e afinidades étnicas, religiosas e geográficas, pela corrupção e pelo clientelismo. Agora trata-se de reconquistar a satisfação e confiança de uma população privada de oportunidades, manchada de violência e desgastada pelos escândalos de corrupção e rivalidades pessoais. Por ora, a primeira parte das eleições (realizadas no passado sábado) deixam-nos um sabor de esperança, um vento de Primavera que superou as expectativas de uma Nigéria reencontrada neste barómetro de estabilidade e construção deste imenso e complexo estado africano. No entanto, mais importante do que o ritual que se repete aos quatro anos, a democracia terá de impor-se como um verdadeiro mecanismo de gestão social capaz de transpor as rivalidades sociais para traduzir-se num projecto de harmonia e desenvolvimento colectivos.

A Páscoa dos líderes

Ontem comemorou-se a Páscoa. Para os cristãos, comemorou-se a paixão e ressurreição de Cristo, que carregou a cruz e nela foi pregado num acto de fé e salvação do seu povo. Para os judeus, a Páscoa simboliza a fuga do Egipto, a odisseia de Moisés e do seu povo para a terra prometida, para escapar à submissão, à desigualdade e à indignidade. Em ambas as religiões, evocam-se os líderes que moldaram dois povos e que plantaram a raiz do que ainda hoje é parte da nossa civilização. Efectivamente, foram líderes que ao seu tempo não só atravessaram mares, desertos e subiram a montanhas, como aceitaram derramar o seu sangue em nome da salvação, em nome de um caminho, em nome de um projecto e de um destino para os seus povos. Se trago o registo destas duas figuras sobejamente conhecidas, é porque ao ouvir os telejornais, as notícias da rádio e ao ler os jornais, ouvi e li sobre a Páscoa, como celebrações religiosas e, para alguns, uma festa pagã. Não ouvi falar de uma celebração laica, a celebração da coragem de povos, a celebração da determinação dos líderes. Líderes que hoje tardam a aparecer, principalmente em África, ou em países onde a carência de projecto se faz sentir no quotidiano da sobrevivência e dos pesados desafios da existência abaixo da dignidade humana. Não me posso esquecer que enquanto falo, jazem crianças em camas de hospital com malária, um adulto é infectado com o VIH/Sida, milhares estão deslocados, centenas morrem à fome, incontáveis seres humanos são traficados como mercadoria e uma infinidade de males que indignariam Moisés e Jesus Cristo vão-se sucedendo sem que os ditos líderes da actualidade, que ostentam o título de presidentes, ministros e directores subam ao Monte Sinai ou assumam a cruz que precisavam carregar. Infelizmente, nem Moisés nem Jesus Cristo aparecerão para nos livrar desses males. Aquelas personagens históricas tomaram os seus títulos não para se servirem dos seus povos, mas parar servir aqueles que justificaram a sua liderança. Hoje temos pessoas que ostentam títulos, dizem-se Presidentes e Ministros. Alguns são eleitos e são acolhidos como líderes democráticos, mas vários ainda ostentam títulos usurpados – aqueles a quem chamamos ditadores – ou que ultrapassaram os limites desses títulos – aqueles a quem chamamos tiranos. Infelizmente, na Páscoa não pude celebrar os líderes africanos porque África sofre debaixo de uma maldição de liderança vazias de ânimo e missão. Por isso, resta-me a fé, a coragem e a ousadia cívicas para exigir aos Ministros e Presidentes que sejam mais que títulos pendurados nos seus gabinetes e que carreguem pelo menos o peso das suas responsabilidades.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

PORTUGAL, o menos imperfeito dos perfeitos

De repente, em plena semana pascoal, a minha esperança na próxima cimeira euro-africana parece ressuscitada. É que, PORTUGAL, enquanto anfitrião da cimeira, apresenta-se como um pequeno país na charneira do desenvolvimento que pode mesmo usar a diplomacia para colocar as preocupações do desenvolvimento num patamar de sucesso efectivo e desmentir alguns dos recentes temores. Quando PORTUGAL tomar a presidência europeia, áfrica pousará os seus olhos no governo português em busca de um sinal. Seja ele de esperança ou de verdadeira ousadia, parece-me que esse sinal já está dado: atentemos ao que nos diz o ÍNDICE DE COMPROMISSO COM O DESENVOLVIMENTO DE 2006, que reflecte o esforço de uns países em prol da felicidade de outros. De acordo com este índice anual do CENTRO PARA O DESENVOLVIMENTO GLOBAL, de uma lista de 21 países considerados desenvolvidos, PORTUGAL ocupa uma distinta 16.ª posição. Isto dito desta forma, parece modesto, mas mergulhemos nas profundezas de uma análise mais submarina.
Entre 2003 e 2006, PORTUGAL pode orgulhar-se de ter sido o 6.º país que mais cresceu no índice, ficando ao lado do esforço do japão e da suécia, e à frente de países como a noruega, a dinamarca, a finlândia ou mesmo o canadá: países de longe mais ricos e desenvolvidos que PORTUGAL. Para além disso, porque a ajuda não se resume à política do cheque, PORTUGAL pode orgulhar-se do 2.º lugar relativamente à abertura do seu mercado às importações de têxteis, ao 6.º lugar quanto à contribuição para a segurança global, ao 10.º lugar na criação e transmissão de novas tecnologias. e vale a pena também mencionar que apesar da baixa taxa de absorção de imigrantes, PORTUGAL posiciona-se em 7.º lugar na recepção de estudantes dos países em desenvolvimento. A importância deste índice é, para simplificar, o seguinte: PORTUGAL é dos menos desenvolvidos entre os desenvolvidos, dos menos ricos entre os ricos, mas apesar disso tem assumido o esforço e o compromisso de ajudar o desenvolvimento de outros povos. É que, não sendo rico nem país influente, o índice mostra que PORTUGAL entende que o desenvolvimento resulta de um verdadeiro ecossistema que ajude os povos menos afortunados a respirar; um ecossistema que apela ao cheque financeiro, mas também à abertura ao comércio e às parcerias entre os governos bons. Como diz se no relatório do índice, nenhum país é perfeito! No entanto, este país pouco perfeito pode ensinar outros mais ricos e perfeitos o caminho a um entendimento comum para a busca da felicidade global.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Dois hinos, uma mensagem

ontem juntei-me ao coro do HINO DA ALEGRIA para celebrar os 50 anos da união europeia. essa união que em 1957 começou como uma comunidade: um sonho de paz tornado realidade pela vontade política de unir um continente desavindo, perdido em batalhas ancestrais e que hoje é, como lembrou o presidente da república português uma âncora de paz e um conteúdo de valores partilhados, liberdade e solidariedade. o que para alguns não passava de uma utopia, é hoje uma realidade que atravessa todas as dimensões da nossa vida política, económica, social e cultural.
não me esqueço que o projecto não se fez sem dificuldades, esforços, consertos e compromissos e que o futuro não está isento de novos desafios, dificuldades e mais compromissos. no entanto, a história mostra-nos que nos momentos decisivos, a utopia guia o compromisso e juntos vão tartarugando o projecto comum.
depois dessa comemoração europeia, olho para a minha herança africana e anseio pelo dia em que cantarei os 50 anos de VAMOS NOS UNIR E CELEBRAR JUNTOS: o hino da união africana. o hino que enuncia a utopia pensada e iniciada em 25 de maio de 1963 como a organização de unidade africana e que em 2002 se tornou na união africana.
a união exprime um renovado compromisso político africano de superar o pesado legado histórico cunhado em letra de lei em 1885, em Berlim, rumando desta vez para uma narrativa com voz própria, em torno da unidade e da solidariedade entre os povos e países africanos, num intencional sentido de paz, segurança e estabilidade do continente.
para superar a história, o desafio da integração africana deve olhar para as lições europeias e delas pode aprender que o destino da integração política não pode deixar para trás os povos e as pessoas que integram um espaço de vizinhança, onde os estados, as nações e as fronteiras são convidados a construir um condomínio de objectivos, sonhos e realidades, respeitando um passado longo que os separa, mas avançando para um futuro ainda mais longo que os une pelo umbigo.

terça-feira, 13 de março de 2007

A lição de Cléudis

realiza-se esta tarde [dia 12 de Março], no instituto de estudos europeus da universidade católica portuguesa, em lisboa, uma conferência intitulada «RECURSOS PETROLÍFEROS E DESENVOLVIMENTO EM ÁFRICA». assim que li o panfleto lembrei-me de cléudis espírito santo.
lembrei-me de cléudis, porque conheci-o na semana passada no aeroporto do sal, em cabo verde. na altura, as omnipresentes estatísticas, as promessas, os sucessos e também o deve e o haver dos comentários e das análises marcavam o compasso radiofónico do dia, assinalando um ano passado sob a tomada de posse do governo de josé maria neves, que em marcas de discurso pessoal e intransmissível mostrava ao mundo e a quem queira ver o desenvolvimento de cabo verde, os desafios que ainda faltam conquistar e as condições que precisam ser reunidas para conjugar as promessas com a realidade por todos desejados.
cléudis não é político, não é economista, não é professor e também não é comentador, nem analista. cléudis é apenas um jovem caboverdiano que trabalha numa casa de câmbios e que gostaria de ser economista, mas a sua mãe, recém viúva não pode sustentar os seus estudos superiores e por isso trabalha, para ajuda-la lá em casa. ao ouvir o balanço governamental, não resisti a perguntar ironicamente a cléudis: o que este senhor cujo nome começa por doutor afirma para acreditar?
e ele, olhando-me confiante na sua resposta, disparou: nós não precisamos de acreditar, o que é preciso é que ele faça bem as coisas. e tem feito. e seguiu-se numa análise política e social de cabo verde, sublinhando dois aspectos essenciais. ele, atrás do seu balcão acredita na educação que faz faculta a força e o empreendorismo pessoais, e tem um projecto de emprego próprio. infelizmente, a ambição de cléudis não comove os bancos que disseram-lhe que quando ele tiver um terço do montante que necessita, que regresse lá. não faz mal, disse-me, vou tentar um negócio mais pequeno enquanto não tenho dinheiro para continuar a estudar: afinal as bolsas do governo não chegam para toda a gente, suspirou.
e rapidamente rodopiou sobre este assunto passando para o seguinte aspecto. e informou-me que o baixo nível de corrupção também é essencial, frisando que a quase ausência da corrupção dá previsibilidade aos comportamentos do governo, dos políticos, do estado, e isso insufla a confiança dos agentes económicos, das famílias, dos investidores estrangeiros e dos bancos.
para concluir, abriu as janelas do futuro e proclamou olimpicamente: não tardará muito cabo verde vai ser mais desenvolvido que portugal. ao ouvir isso, desejei que não fosse só cabo verde mas também angola, moçambique, guiné-bissau e são tomé e príncipe. porque não?
felizmente, esses países têm a mesma riqueza humana e jovem que cabo verde. mas mesmo que alguns deles possuam recursos naturais importantes, não possuem os líderes de cabo verde, que olham para o seu povo como os verdadeiros titulares do poder e desempenham a sua função com a noção de que estão em comissão de serviço. em vez disso esses países têm líderes caprichosos e corruptos que vão sugando a matéria-prima das suas terras para alimentar os seus luxos, mordomias e eternizar-se como lapas na rocha do poder.
para não me perder no fio da meada, regresso à conferência desta tarde na universidade católica. e antecipo que nenhum dos senhores professores é cléudis, e por isso não falam do desenvolvimento de forma tão simples e evidente. até aposto que vou ouvir falar de democracia, boa governação, empowerment, boas práticas, investimento reprodutivo, reformas, receitas macro-económicas de bretton woods, planos geoestratégicos chineses e americanos, entrada de angola na opep, comissão do golfo da guiné, as longínquas esperanças de são tomé e príncipe e também da corrupção.
então, três horas depois, lá mais para o fim da conferência, vou pensar que mais valia voltar para cabo verde e continuar a conversar com aquele rapaz de 20 anos que quer ser economista, e que não o sendo percebe que gerir petróleo é tão fácil como gerir uma casa: apenas é preciso pensar no bem de todos e fazer bem as coisas. e aqui sentado em lisboa, imagino que lá em cabo verde cléudis me diria simplesmente: áfrica não sofre de uma maldição dos recursos, sofre sim de uma maldição de líderes.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Revolução Científica Africana: entre a palavra e a coisa

desde os tempos mais remotos até à actualidade, o progresso das sociedades humanas tem sido pautado por conquistas e inovações tecnológicas. conquistas essas que revelam o esforço humano de dominar o saber, a natureza e as suas próprias limitações.
na sua última obra, A REVOLUÇÃO DA RIQUEZA, alvin e heidi tofler propõe-nos uma breve cartografia dessas conquistas. ao percorrermos o atlas que propõem, descobrimos que o esforço tecnológico – do mais tosco ao ultra-sofisticado – permitiu ao ser humano sobrevoar três vagas na criação de riqueza: a primeira marcada pelo cultivo agrícola; a segunda marcada pela produção industrial e a terceira, na qual viajamos à velocidades estonteantes, marcada pelo conhecimento científico e tecnológico, empírico ou meramente participativo e pela aceleração do tempo.
A 8.ª cimeira dos chefes de estado da união africana, realizada em finais de janeiro na capital etíope abdis abeba, prometia ser uma repetição da cimeira de lagos realizada há cerca de 30 anos, na qual – já nessa altura – se reconhecia e prometia colocar a ciência e a tecnologia ao serviço do desenvolvimento através do reforço da capacidade endógena dos países africanos. em abdis abeba voltou a repetir-se o cardápio e os discursos pontuaram-se na exortação aos estados membros para que despendam 1 % da sua riqueza anual em pesquisa e desenvolvimento científico e para que contribuam para o fundo africano para a ciência e inovação. ao que parece, desta vez os líderes africanos escutaram o repto de acabar imediatamente com o eterno fosso entre a palavra e a coisa.
para já, os 240 hectares do instituto do golfo da guiné, cujas obras iniciaram na semana passada em abuja certificam o esforço africano para estruturar uma comunidade científica própria, através de uma rede de centros de excelência que ajudem a diminuir o fosso, desta feita tecnológico e científico e de riqueza que separa o continente do resto do mundo. o truísmo aqui é simples: estes centros exigem/induzem a uma utilização eficaz de recursos humanos e técnicos, aumentam a pressão para a adopção de melhores práticas de gestão e potenciam a criação de pontes entre a investigação científica e actividade empresarial.
no entanto, para que os fossos tecnológico e científico passem de vez para os armários das más recordações e se abrace esta vaga de criação de riqueza, é necessário ver/navegar para além da excelência elitista dos centros de investigação: precisamos promover e implementar uma verdadeira cultura geral científica, de modo a tornar tanto a ciência e a como a tecnologia em lugares comuns que convivam diariamente e sejam acessíveis ao homem e mulher comuns para que estes tenham acesso a saberes que lhes abram as portas a melhores empregos e novas oportunidades económicas.
ou seja, a verdadeira revolução da riqueza só acontecerá se for feita com a base da pirâmide, porque como nos lembram os tofler, uma economia avançada requer uma sociedade avançada.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Ciência, religião, a política e um tal mundo plano

na semana passada foi anunciada uma esperança há muito adiada e essencial para o desenvolvimento do continente africano: o vírus da sida pode ter uma fraqueza! os cientistas descobriram que, por breves instantes, o vih, o vírus da sida, mantém-se vulnerável, apresentando uma porta de ataque que já ficou conhecida como o seu calcanhar de aquiles. o gp 120, o tal calcanhar de aquiles, é a proteína do vírus que funciona como a chave imutável que permite a este vírus camaleão infectar o ser humano. a nossa esperança, dizem os cientistas, reside num anticorpo conhecido: o b 12.
os cientistas descobriram o túnel, mas reconhecem que ainda serão necessários muitos esforços e estudos para fazer chegar a luz no seu fundo: é que está ainda em aberto saber se é possível produzir no corpo humano ainda não infectado pelo vírus quantidades suficientes de b 12, o tal anticorpo que pode desactivar o vih.
no entanto, até que se encontre a vacina, é preciso não deixarmos todos os créditos em mãos alheias: como se sabe, áfrica é o continente mais infectado e afectado pela doença. a vacina – esperemos venha mais cedo que tarde – não resolverá todos os problemas, porque, entre outras, serão precisas mais e melhores políticas de saúde, profissionais de saúde em quantidade, qualidade e motivados, melhores condições hospitalares e dos serviços, acessos a meios de transporte, e acima de tudo, preços que permitam concretizar o programa acesso universal aos serviços de hiv/sida, malária e tuberculose aprovado no ano passado em cimeira da União Africana, realizada na capital nigeriana abuja.
num século em que se debate o lugar da ciência e da religião na vida social, a saúde, e em particular a sida, parece poder vir a ser o lugar de diálogo perfeito. de acordo com um estudo divulgado pela organização mundial da saúde, entre 30 e 70% das infra-estruturas de serviços de saúde nos países africanos é assegurado por organizações de cariz religioso. isso quer dizer que têm sido estas organizações as grandes concretizadoras desse programa acesso universal aos serviços de hiv/sida, malária e tuberculose.
nesse registo, os estados africanos não se podem demitir das suas responsabilidades e por isso, não se podem esconder por detrás da falta de meios para implementar políticas de cooperação que permitam um melhor aproveitamento dos serviços prestados por aquelas organizações sociais; e de criar estruturas que permitam estratégias de reforço mútuo para uma aliança global com os laboratórios e empresas comercializadoras dos medicamentos.
assim, e tendo em vista essa parceria global para o desenvolvimento, também os países ricos e que possuem a tecnologia para a produção da vacina devem olhar para esta realidade como uma oportunidade para agregarem esforços de modo a convencer o mundo económico que o processo de globalização pode ser justo, solidário e inclusivo, levando o continente africano ao tal mundo plano que muitos ainda desconhecem. o tal mundo que a ciência procura nos microscópios e as religiões parecem ter encontrado no terreno.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Nem tudo o que caça ratos é gato

na Carta Aberta a Hu Jintao, marcelo mosse pede ao presidente chinês que a china respeite o esforço democrático dos moçambicanos
e de todos os africanos, por identidade de razão, diria eu
na condução das relações sino-africanas. o repto do Coordenador Executivo de Centro de Integridade Pública pode resumir-se no seguinte dito: nem tudo o que caça ratos é gato! como defende chris alden no seu artigo Leveraging the Dragon: Toward "An Africa That Can Say No",
(publicado no yale global)
o continente africano deve aprender a definir o seu modelo de relacionamento com a china e defender (com unhas e dentes) o seu interesse. não se trata de um paternalismo como putativamente alguns me acusam, mas sim de prudência!, para que daqui por 500 anos não lamentemos o fardo do homem negro que é ciclicamente vê-se "nu" a troco de pechinchas. com efeito, disse e repito: temos de partir da realidade crua africana
(é triste, mas até que mude: olhe, o rei ainda vai nu, ou quanto muito ainda vai roto. não me digam que o alfaite já está de tesoura na mão porque ainda reina muita ignorância do que será o traje do dito rei)
o continente deve ganhar capacidade reivindicativa perante o império do meio e não aceitar acritica e incondicionalmente a entrada chinesa que chega com anúncios de que é o gato que nos vai ajudar a acabar com os ratos do porão. mosse e alder não estão sozinhos: também eu sei
(e os muitos africanos que já viram os seus negócios fechar, as oportunidades de emprego escapular para as mãos chinesas e o petróleo abastecer os exércitos de abutres que ainda esvoaçam sobre o continente)
que não há almoços gratis. é preciso sabermos que nem tudo o que caça gatos é rato: pode bem ser uma cobra ou outro bicho (dragão?) que não se importa de petiscar o rato enquanto se prepara para se atirar para tudo quanto se mova. importa não nos demitirmos de vigiar os governos africanos e chineses para que não nos arrependamos quando daqui por 500 anos os nossos herdeiros nos acusam de não termos visto bem os dentes da besta que nos devorou o destino... com o nosso consentimento, está claro.
(onde é que eu já li isto? perdoe-me o leitor se lhe parece plágio: o eco da história tem destas coisas: há sempre uma perspectiva de já visto.)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

As Lições da História: do Plano Marshall aos Desafios do Milénio

quando se pensa na eficácia da ajuda externa, pensa-se no Plano Marshall e nas condições endógenas para tornar a ajuda uma alavanca de desenvolvimento. o debate ainda está aceso, mas a UNCTAD dá uma ajuda aos policy makers e practioners elaborando uma tabela histórica e comparativa, onde - intuitivamente - se pode compreender algumas lições. a leitura do relatório ECONOMIC DEVELOPMENT IN AFRICA 2006 ajuda a compreender mais aprofundadamente estas lições.
Source: Hjertholm and White (2000: 81, table 3.1); in Economic Development in Africa 2006, UNCTAD.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

De Nairóbi a Davos: a Globalização a duas vozes num mundo achatado

as notícias que dão conta de que O Mundo é Plano são francamente exageradas, se não mesmo falsas. reparem: numa mesma semana, com início no passado sábado e fim no próximo domingo, o mundo será interpretado em duas importantes arenas internacionais: o fórum social mundial e o fórum económico mundial. o primeiro reúne-se desde sábado em nairobi, no quénia; e o segundo inicia-se na quarta-feira em davos, na suiça. naquele discute-se um outro mundo possível, pela libertação do mundo do domínio das multinacionais e do capital e pela construção de uma economia alicerçada nas pessoas. neste equacionam-se as novas forças da mudança, os perigos geopolíticos, os avanços tecnológicos e os constrangimentos à globalização.
entre o social em nairóbi que caracteriza a utopia crítica de uma visão alternativa, numa busca de uma partilha equitativa da riqueza e a economia dos lucros e da riqueza que tenta alargar as conquistas da produção liberal em davos, áfrica surge em cima da mesa de ambos os conclaves: na mesa de davos, surge como potencial beneficiário de uma globalização que ainda não passou pelo continente, ou melhor, que já lá há muito atracou para encher navios de recursos naturais e aviões de talentos humanos prontos a exportar. na mesa de nairóbi, surge como o mais ilustre perdedor na luta de titãs das grandes potencias e multinacionais em busca de um paraíso de baixos custos de produção, segurança de abastecimentos e acesso a mercados favoráveis.
a verdade é que, seja em nairóbi seja em davos, áfrica parece uma impotente estátua no centro de uma praça, por onde todos passam e até apontam maravilhados congeminando projectos, estratégias e modelos de desenvolvimento, sem no entanto a estátua virar gente de carne e osso. áfrica hoje, como ontem, é apenas uma disputa e fonte de riquezas que vai trocando a alma pela promessa de um desenvolvimento adiado, hipotecando ou devorando a própria esperança num processo de neo-mercantilismo cínico, seja ele porque não contempla a riqueza pelos meios duma globalização canibalizante, seja porque insiste na apropriação de utopias cegas à criação de riquezas. riquezas essas que já não brotam do chão, das minas ou de outros buracos mais ou menos fundos, mas que provêem de tecnologias, informação e talentos humanos. riqueza essa que davos acumula a norte e que nairóbi pretende distribuir a sul.
é preciso compreendermos que, enquanto a globalização deixar vazias as barrigas de áfrica, o mundo continuará redondo e achatado. talvez mesmo um pouco chateado: seja em davos, porque o continente continuará a ser o sapo entalado na engrenagem dos lucros; seja em nairóbi, porque as utópias por si só não enchem a barriga de multidões.

Feito a 4 mãos, com Rute Martins Santos (a minha delightful amora) nos teclados.

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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

St = Qt (Pt - 29)

A fórmula é simples: subtrair parte dos lucros das companhias petrolíferas para reduzir a factura petrolífera dos países africanos importadores. A ideia foi lançada pelo Presidente senegalês, (Sim!, o mesmo que esteve em visita de Estado em São Tomé e Príncipe na semana passada) Adbulaye Wade promete causar polémica As petrolíferas não são misericórdias,… Os estados exportadores têm a sua própria agenda, problemas conflitos e classe parasitária,… O baixo desempenho africano é culpa da endemias trans-temporais como a corrupção, falta de liderança, o neo-patrimonialismo, a economia rendeira, as guerras, etc…. mas tem méritos e levanta questões de justiça. Expliquemo-nos: Wade pretende que os países produtores africanos, as petrolíferas e a comunidade internacional acordem que os lucros das petrolíferas sejam calculados pela fórmula St = Qt (Pt - 29), já baptizada de Fórmula Wade. [em que S: lucro; Q: produção africana; P: preço do barril de petróleo; t: determinado ano; e 29 é o preço médio do barril em 2003] O presidente Senegalês alega em sua defesa que (passamos a citar em itálico e sem aspas) — é indecente e imoral que as petrolíferas continuem a embolsar biliões em lucros crescentes desde 2003 (a parte do crescente desde 2003 é minha) ou, em inglês: indecent and immoral that oil giants were pocketing billions of profits e que, por seu lado, os Estados importadores continuam a pagar contas cada vez mais elevadas. Referindo-se ao caso do seu país, compara: em 2006 um americano paga três dólares por galão e um senegalês paga o dobro pelo mesmo galão; num país com carências energéticas (vivendo em constante corte e cola energético) e onde os cidadãos usufruem de um rendimento anual per capita de 850 dólares (em números redondos). Trata-se assim de um pedido de justiça, de sustentabilidade, de um esforço de distribuição dessa riqueza gerada por factores de entre aspas mercado que as petrolíferas são convidadas a fazer. Efectivamente, numa conjuntura em que o grito — a era do petróleo barato já lá vai, a ideia não é fazer desses Estados uma espécie de Robin dos Bosques, tirando lucros às milionárias petrolíferas para dar aos pobres (e, em n dos casos, mal governados Estados africanos) mas pedir aos Xerife de Nottingham que aparta um pouco da sua riqueza, evitando a revolta dos pobres: repartir os custos do aumento do preço do barril para aliviar a factura dos países mais aflitos. (Ah, e fique sabendo que, na proposta, o dinheiro vai direitinho para um fundo e não para qualquer conta rendeira, quiça na Suiça, sem querer tirar o mérito dos também esforçados paraísos fiscais). A proposta é audaz, apela à justiça, mas antecipo que será difícil tornar o Xerife em herói da floresta. Dito isso, tenho por certo que o desafio do desenvolvimento e a responsabilidade pelo seu fracasso é, em primeiro lugar, dos próprios líderes africanos e da sua endógena capacidade de fazer desviar para o exterior as culpas e incapacidades da sua gestão.

Para saber mais sobre o assunto: Veja a Lista dos Países Produtores Africanos e leia as coberturas jornalísticas na Afrol News, na Reuters, na Voice of America, na allfrica. Infelizmente, em português só consegui encontrar a notícia publicada no Corrier Internacional, n.º 87 (1 - 7 de Dezembro de 2006). Se for a correr, ainda pode comprar até ao final da semana.