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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Show me the money: o dinheiro dos nossos emigrantes

O relatório Sending money home: Worldwide remittances to developing countries, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (em inglês: International Fund for Agricultural Development/IFAD) em parceria com o Banco Interamericano para o Desenvolvimento (Inter-American Development Bank/IDB), dá-nos uma imagem pollaroid do fluxo de remessas dos imigrantes mundiais em 2006. Alguns dados:

  • 150 milhões de emigrantes mundiais contribuíram com cerca de 300 mil milhões (não confundir com o anglo-saxónico billion) de dólares americanos;
  • África recebeu cerca de 40 mil milhões de dólares americanos da sua diáspora (de 29 milhões de cidadãos);
  • As remessas foram essencialmente utilizadas para prover às necessidades básicas (alimentação, vestuário e alimentação);
  • Mundialmente, uma parcela entre 10% a 20% foi destinado a poupança;
  • Em São Tomé e Príncipe, estima-se que as remessas corresponderam a cerca de 39% do PIB (o segundo maior em África a seguir à Guiné-Bissau: 48,7%).

O relatório conclui que há ineficiências na qualidade dos dados obtidos e no custos das transferências. No entanto e sem conceder, insta o mundo a transformar as remessas numa ferramenta de desenvolvimento mais eficaz. A ler, reflectir e exgir resultados na Cimeira Euro-Africana (Mugabe incluído). Vale também exigir aos Estados que tratem melhor a sua diáspora que, pelos vistos, merece mais e melhor que os simples abandonos e palavras de ocasião.

segunda-feira, 19 de março de 2007

O caso da caducidade da diplomacia portuguesa

pedro mantorras é um artista dentro e fora de campo: dentro das quatro linhas finta, marca golos e empolga multidões; fora das quatro linhas, mantorras empolgou as diplomacias angolana e portuguesa.
a carta que pedro mantorras exibiu aos agentes policiais portugueses nem mesmo em angola o autorizava a dispensar o motorista, mas foi o basta! que mostrou que o rei sócrates afinal vai nu, ou pelo menos os seus calções de atleta matinal da baia de luanda não servem para estas corridas: é que a licença de condução da diplomacia portuguesa também está caducada, e pelo menos não vale em angola.
o episódio mantorras deixa apeada a política espectáculo de josé sócrates em relação aos países africanos onde se fala português, os conhecidos falops; desmontam os discursos e empolgadas assinaturas de acordos, contratos e protocolos que nada têm que ver com o dia a dia das pessoas e revela que o governo de sócrates não tem política externa lusófona, não conhece os seus parceiros africanos e ridiculariza-se gratuitamente.
tal como a carta de mantorras, a carta diplomática de josé sócrates está caducada e não vale fora de portas: é que a antiga metrópole, padecendo ainda de um stresse pós-traumático, ainda não reconhece as suas saudosas colónias como países soberanamente independentes.
a carta de mantorras veio exigir que nesta era pós-colonial a diplomacia não se faça apenas nas corridas matinais das marginais, nos cortejos de investimentos e assinaturas de protocolos para construir uma relação entre estados, mas também nos aeroportos, nas embaixadas, nos serviços de migração e fronteira e... nas ruas: onde estão as pessoas.
o que está em causa na carta de mantorras é um modelo de diplomacia de contentor que já não interessa aos povos que constituem a lusofonia.

domingo, 26 de novembro de 2006

A suga de imigrantes com cérebro

Agora que se conhece o documento estratégico para as três próximas presidências da União Europeia, confirma-se que África fará parte das prioridades diplomáticas europeias. Com efeito, África e imigração ilegal são sinónimos de preocupação, dinheiro e medidas de cooperação. No entanto, entre as contas e cantos da relação bilateral, adivinho que a Europa não deixará de fazer o seu jogo duplo: a) fechar as portas aos imigrantes pés descalços e b) abri-las com convites dourados aos imigrantes com cérebros, especialidades, conhecimentos e técnicas para as empresas, universidades e serviços europeus. Prioritário ou não, as políticas de cooperação bilateral passarão ao lado das necessidades de também inverter esta drenagem de cérebros africanos ou de encontrar mecanismos que ajudem os africanos a criarem condições de investimento e aproveitamento dos seus melhores recursos humanos. Tarefa essa que por todos os motivos de desenvolvimento se exige prioritariamente aos africanos. Ou seja, África e Europa insistem em não entender que esta drenagem de cérebros contribui para manter o estado das coisas: um desenvolvimento baixo e uma dependência externa. Persistindo-se na delapidação das consideradas riquezas para o séc. XXI e mais uma vez relegando os manuais da história e da economia para o esquecimento, os africanos criam as condições ideiais para que daqui por 500 anos venham mais uma vez culpar a Europa pelo seu atraso, esquecendo-se que, no quadro dos desafios actuais, África não dispõe de 500 anos. É caso para dizer: o que para uns é desperdício, para outros é riqueza. Por isso, não me espanta que a Conferência Ministerial África-Europa para a Migração e Desenvolvimento realizada esta semana tenha dado mais importância à imigração ilegal e aos cálculos financeiros, do que a uma genuína tentativa para estancar a suga de imigrantes africanos com cérebros. E que os líderes africanos se tenham preocupado mais uma visão assistencialista do que construtiva do seu futuro.
[Baseado na nossa crónica transmitida na rúbrica Ao Calor de África da RDP-África de 20 de Novembro de 2006]